Saturday, December 30, 2006

"A Menina do Metrô" - Parte 1

A volta para casa era sempre rotineira e automática, não fazia uso das atividades cerebrais, somente da força motora de seus membros inferiores. Cinco minutos caminhando e recebendo panfletos até o metrô, dez minutos até a estação do Largo e mais dez minutos no micro ônibus e já estava na porta de casa. Passava o tempo em devaneios inúteis, lendo ou apreciando melodias. Essas melodias costumavam deixar pessoas mais perfumadas, mais afáveis. Já os livros o sugavam com tamanha animação que era certo perder a estação. Nada que mais alguns minutos no frescor dos vagões não reparassem.

Num dia qualquer foi surpreendido assim que adentrou o seu vagão. Sim, o vagão lhe pertencia por direito e usucapião, mas era gentilmente compartilhado com a turba. Nesta qualquer-feira seu destino foi transposto sem consentimento ou permissão pela menina do metrô. Sentiu-se minuciosamente apurado, incomodado, sorvido. Mas a sensação desconfortável durou apenas alguns segundos quando seus olhos se chocaram. O celeste anilado cintilou em sua direção fazendo perder as idéias. Já não sabia como se portar ou como agir. Não sabia se coçava a cabeça ou roia as unhas, não sabia como disfarçar o completo estado mentecapto que o tinha tomado. O sangue lhe subiu as ventas corando o semblante e tinha a certeza que todos estavam rindo do tresloucado ali parado. Nada mais importava, a não ser conseguir o frescor daquele olhar novamente. Já tinha perdido a noção do tempo e por pouco conseguiu amparar-se no executivo ao lado para não ceder a brusca parada do trem. O aviso sonoro do fechar das portas o trouxe de volta a realidade. Mas a imagem que teria naquele momento se repetiria por noites a fio. A menina do metrô estática num pedestal envolta por uma névoa mágica que intensificava a sensação da hipnose febril. Somente com a ardência do suor caido em seu olho conseguiu se desfazer daquela imagem e percebeu que ja tinha passado algumas estações do Largo. Por mais que tentasse lembrar onde a tal menina teria descido não conseguia. Não tinha o total discernimento da realidade e da fantasia naquele exato momento mas percebeu que algumas pessoas olhavam com um certo estranhamento para sua pessoa.

Neste dia adormeceu sem o costumeiro lanche noturno, pensava somente em estar no mesmo local na mesma hora para encontra-la novamente. Agora a menina do metrô invadia seus sonhos, sua ultima imagem lhe aparecia num misto de anjo e feiticeira, no exato momento que ela iria pronunciar alguma coisa ecoou a sirene das portas e acordando num susto percebeu que era apenas o despertador.

Depois de uma semana a vasculhar vagões já estava convencido que aquela menina não passava de uma alucinação, talvez devido ao trabalho excessivo. Apenas dos sonhos não conseguia escapar. Aos poucos voltava aos seus passatempos prediletos. Tinha excelente aptidão para os números mas deixava a desejar nas escolhas literárias. Gostava de livros sobre misticismo que acrescentavam quase nada a intelectualidade. Era na verdade um grande sonhador que acreditava no amor eterno e na bondade humana. Presa fácil para os amigos manipuladores e ladinos.


a continuar ...